
Relógio biológico virado do avesso Médicos alertam para os riscos de saúde na vida de quem decide trocar o dia pela noite por longos períodos
André Bernardo
Rio - À noite, enquanto a grande maioria dos mortais se prepara para dormir, uma parcela significativa da população continua acordada. Para garçons, DJs e taxistas, entre outros, a madrugada não tem hora para acabar. Atualmente, 30% dos trabalhadores trocam o dia pela noite em esquemas de turnos. Apesar de uma suposta compensação financeira, os males que a privação crônica de sono causa ao organismo vão desde dor de cabeça, cansaço e irritação no dia seguinte até diabetes, hipertensão e problemas cardíacos a médio e longo prazo.
“O homem foi biologicamente programado para trabalhar de dia e dormir à noite. Na maioria das vezes, o organismo até tenta se adaptar ao ritmo noturno, mas nem sempre consegue. Por isso, um em cada quatro trabalhadores precisa retornar à escala diurna”, afirma a neurologista Lia Azevedo Bittencourt, da Sociedade Brasileira do Sono.
Segundo Lia, o tempo ideal de sono varia conforme a idade, a genética e a necessidade de cada um. Bebês, por exemplo, necessitam de 16 horas de sono. Já os idosos se satisfazem com quatro. Os adultos, em sua maioria, precisam de oito horas. Mas, independentemente do número ideal de horas de sono, especialistas alertam que o mais importante é respeitar o ‘relógio biológico’: ou seja, acordar com a luz do sol e dormir no escuro da noite.
“A ausência de luz, a queda na temperatura corporal e a produção da melatonina (substância que regula o sono) contribuem para o sono do indivíduo. Não é à toa que alguns dos piores acidentes nucleares da história, como Three Mile Island, nos EUA, ou Chernobyl, na URSS, aconteceram entre 3h e 5h. Este é o horário em que o corpo atinge a menor temperatura”, alerta a neurologista Andréa Bacelar, da Sociedade de Neurofisiologia Clínica do Rio de Janeiro (SBNC).
É por essas e outras que o taxista César França da Cruz Júnior, 32 anos, procura tomar algumas precauções quando roda de madrugada. Para não pegar no sono, gosta de bater papo com os passageiros e andar com o rádio ligado. Há cinco anos, quando o pai assumiu o volante do táxi durante o dia, César passou a trabalhar à noite, das 17h às 4h.
“No começo, foi pior. Por mais que dormisse o dia inteiro, continuava cansado. E o pior é que você fica sem vida social. Há cinco anos, não sei o que é tomar café da manhã ou praticar atividade física. No final das contas, você não trabalha para viver, você vive para trabalhar”, reclama César, que engordou 20 quilos neste período.
No caso de Márcio Tadeu da Silva Freitas, 37 anos, cochilar no trabalho não chega a ser tão fácil. DJ da Katmandu, ele já troca o dia pela noite há 24 anos — desde que começou a animar as primeiras festinhas no ‘play’ do prédio onde morava. Hoje, calcula que não dorme mais do que três horas por dia.
“Financeiramente, o sacrifício até compensa. Mas, em termos de saúde, não sei se posso dizer o mesmo. Vivo com pressão alta e, volta e meia, tenho dor de cabeça. Outro dia, paguei um amigo para tocar em meu lugar. Só assim, dormi 8 horas seguidas. Há muito, não dormia tanto”, brinca.
ESPECIALISTA SUGERE COCHILO ANTES DO INÍCIO DO EXPEDIENTE
Cansaço, dor de cabeça, irritação. Notívago desde sempre, o autor de ‘Sete Pecados’, Walcyr Carrasco, 56 anos, garante nunca ter sentido qualquer tipo de ‘efeito colateral’ à sua caótica rotina de trabalho. Quando está no ar, ele começa a escrever em torno das 18h e só termina por volta das 4h da manhã. “Normalmente, não acordo antes do meio-dia. Mas o meu horário sempre foi esse, nunca tive outro. Costumo até brincar dizendo que só passo mal quando acordo ou deito cedo. Aí, sim, eu fico um verdadeiro trapo”, brinca o escritor.
Mas Walcyr pode se considerar uma exceção na regra de trabalhadores que trocam o dia pela noite. O garçom João Paiva Melo, 63 anos, é um dos que sofrem com a jornada noturna. No Jobi, onde trabalha há 25 anos, ele costuma pegar às 19h e só larga às 4h.
Dependendo do movimento, chega até as 7h. “Nem se quisesse, não conseguiria cochilar no trabalho. Um chama daqui, outro dali e assim por diante. Se cochilasse, o cliente poderia sair sem pagar e o patrão ia brigar comigo”, brinca.
Para Andréa Bacelar, o trabalhador de turnos sofre, em média, uma redução de duas horas de sono por noite. Ao fim de uma semana, ele contabiliza um prejuízo de 14 horas de privação de sono. Além disso, muitos abusam da cafeína para suportar a jornada sem saber que o efeito não é cumulativo. “Se você toma café às 19h, voltará a sentir sono depois da 1h30. O ideal seria tirar um cochilo poucas horas antes do trabalho. O cochilo programado aumenta a vigilância do trabalhador”, recomenda a neurologista.